O texto a seguir é conhecido como “O Alfabeto (ou As Letras) de Rabi Akiva”, um midrash (ensinamento da Torá Oral) que narra a criação do mundo a partir de um diálogo entre D’us e suas otiot. Eu o tenho em algumas versões em inglês e resgatei esta tradução do livro “As letras do Alfabeto na criação do mundo”, de Elifas Lipiner (Imago, 1992). Alguns colchetes são do Elifas e outros são meus. Entram para trazer esclarecimentos aos pontos relevantes.

A partir dele descobrimos, por exemplo, porque Beit foi escolhida para ser a primeira letra da Torá.

Rabi Akiva é considerado o “Pai do Judaísmo Rabínico”. Eu o cito quando alguém reclama de estar como “muita idade” para mudar ou fazer algo novo, pois se diz que ele era analfabeto até os 40 anos e só então começou a estudar a Torá para acabar se tornando um de seu grandes comentaristas.

Possam todos se beneficiar!

No tempo em que o Santo, bendito seja Ele, concebeu a ideia de criar o mundo, todas as letras do alfabeto existiam ocultas, porquanto dois mil anos antes da criação Ele já as contemplava e se deleitava com elas. E, assim que decidiu iniciar a criação, as letras puseram-se a desfilar perante Ele, em ordem inversa [começando pela última].

Tav, Shin, Resh e Kuf

Entrou, pois, a letra Tav, em primeiro lugar, e disse: “Senhor do Universo, digna-Te servir-Te de mim para criar o mundo, dado o meu dom de concluir a palavra emet (“verdade”) gravada no seu selo, e ainda porque um de Teus apelidos é igualmente Emet; seria conveniente, com efeito, ao Rei, iniciar a criação do mundo com a letra da Verdade!”.

A criação do mundo - ilustração da letra Shin na arte de Gilles Barnier

A letra Shin – arte de Gilles Barnier

Respondeu-lhe o Santo, bendito seja Ele: “Tu és de fato, digna, tu és apropriada, mas não convém que me sirva de ti para criar o mundo, porquanto tu já és destinada a ficar gravada na fronte dos fiéis que tenham observado os preceitos da Lei de Alef (começo) a Tav (fim), e, não obstante, eles morrerão, porque tu és também a última letra da palavra mavet (“morte”). Por teus vícios não és conveniente que me sirva de ti para a criação do mundo”.

Prontamente a letra Tav retirou-se.

Apresentou-se, então, perante Ele, a letra Shin, dizendo: “Senhor do Universo, digna-Te servir-te de mim para criar o mundo, por que eu sou a inicial de Teu nome Shadai (“Todo-Poderoso”) e seria apropriado criar o mundo por intermédio do nome divino!”.

Respondeu-lhe: “Tu és apropriada, tu és boa e és verdadeira, mas porquanto as letras da falsidade servem-se de ti para associar-te a elas, não criarei por teu intermédio o mundo”. Com efeito a palavra sheker (“falsidade”) não é formada senão associando a Shin as letras Kuf e Resh; (deflui daí que a pessoa que desejar dizer uma falsidade deverá tomar primeiro uma base de verdade, para sobre ela construir a mentira). De fato, a letra Shin é a letra da verdade, que designou, inclusive, (através dos três ramos que caracterizaram a sua figura) os (três) Patriarcas, enquanto Kuf e Resh são letras que revelam o lado pernicioso, e, para garantir a sua existência, associam-se a letra Shin, formando com ela uma aliança. Assim que a letra Shin, pois, teve conhecimento de sua posição, retirou-se de diante Dele.

Tsade, Peh, Ayin e Samech

Apresentou-se, então, perante Ele, a letra Tsade, argumentando: “Senhor do Universo, digna-Te servir-Te de mim para criar o mundo, que eu designo o justo (Tzadik =Justo) e Teu apelido é Justo, sendo apropriado, portanto, criar o mundo por meu intermédio.

Respondeu-lhe: “Tsade, Tsade, tu não és a Estrela” – ok, piadinha com os telemitas. 🙂

“Tsade, Tsade, és justo, de fato, porém és destinada a ficar oculta, devido aos segredos da masculinidade e da feminidade que se encontram cifrados na tua constituição gráfica, e não devem ser revelados senão em outra oportunidade’. Saiu, então, a letra Tsade de diante Dele e foi-se embora.

Apresentou-se, então, perante Ele, a letra Peh, dizendo: “Senhor do Universo, que Te apraza servir-Te de mim para criar o mundo. Não sou eu a inicial da palavra pedut (“redenção”) que haverás de trazer ao mundo’? É apropriado, pois, criá-lo por meu intermédio”.

Respondeu-lhe: “Serias, de fato, apropriada, porém és igualmente a inicial da palavra pesha (“pecado”), enquanto a tua figura lembra a cobra que morde e recolhe a cabeça, para dentro do próprio corpo, à semelhança do pecador que abaixa a sua cabeça e estende a sua mão”.

Igual sorte teve a letra Ayin, inicial da palavra avon (“pecado”). Não obstante a sua argumentação de ser igualmente a inicial da palavra anava (“humildade”), o Santo, bendito seja Ele, respondeu-lhe que não criaria o mundo por seu intermédio, e dispensou-a.

Apresentou-se, então, perante Ele, a letra Samech, dizendo: “Senhor do Universo, que Te apraza servir-Te de mim para criar o mundo, porque é sobre mim que se arrimam os vacilantes, conforme atesta o meu nome (Samech = arrimo)!”.

Respondeu-lhe: “Por essa razão, exatamente, deves voltar ao teu lugar sem mais saíres dele, que se tu saíres de teu lugar, qual será a sorte daqueles que estão prestes a cair e buscam teu arrimo?”. Prontamente ela se afastou de diante Dele.

É importante diferenciar para quem apenas lerá “pecado” em três palavras diferentes: chet, avon e peshaChet (para alguns, “iniquidade”) é quando a pessoa se desvia do seu propósito por acidente,  desconhecimento ou engano.  Avon (para alguns, “transgressão”) é quando uma pessoa cede ao desejo de desfrutar de coisas proibidas. Ele tem consciência de que não deveria fazer, mas não resiste ao instinto. Pesha entra como uma “rebeldia”. Avon não quer “desagrada a D’us”, pesha, sim. É um tipo de desafio às Leis da Torá como quem se recusa deliberadamente a se submeter a elas.

Nun, Mem, Lamed e Caf

Apresentou-se, então, perante Ele, a letra Nun, dizendo: “Senhor do Universo, digna-Te servir-Te de mim para criar o mundo, porque eu sou a inicial da palavra Nora (“Temido”) que se aplica a Ti!”.

Respondeu-lhe: “Nun, volta ao teu lugar, que por tua causa também a letra Samech voltou ao dela, e arrima-te a ela!” (a palavra nofelim que designa os vacilantes, começa com Nun). Prontamente a letra Nun voltou ao seu lugar. [eu gosto de interpretar Samech como “apoio” ou “suporte”, mas mantenho o texto do tradutor.

Apresentou-se, então a letra Mem, dizendo perante Ele: “Senhor do Universo, digna-Te de servir-Te de mim para criar o mundo, porque eu sou a inicial de Teu apelido Melech (“Rei”)!”.

Respondeu-lhe: “Dizes, de fato, a verdade, porém não criarei o mundo por teu intermédio, porquanto o mundo necessita de um rei. Volta, pois, ao teu lugar, tu, bem como as letras Lamed e Caf final (as demais letras que entram na composição da palavra Melech), que o mundo não pode existir sem rei”.

Nesse instante, desceu a letra Caf do Trono da Glória Divina, agitou-se e disse perante Ele: “Senhor do Universo, que Te apraza servir-Te de mim para criar o mundo, porque eu sou a inicial da palavra Kavod (“Glória Divina”)!”. E, assim que a letra Caf desceu do Trono, duzentos mil mundos abalaram-se, bem como o próprio Trono, e todo o Universo estava prestes a cair. [a base do Trono é formada por várias letras Caf]

Disse, então o Santo, bendito seja Ele: “Caf, Caf, por que insistes em ficar aqui? Não criarei por teu intermédio o mundo. Volta ao teu lugar que és a inicial da palavra kelayah (“extermínio”). Volta ao teu Trono e permanece lá. Prontamente ela saiu de diante Dele e voltou ao seu lugar.

A criação do mundo - a letra Lamed na arte comissionada de Michel Danastasio

A letra Lamed – arte comissionada de Michel Danastasio

Yud, Tet, Chet e Zayin

Apresentou-se, então a letra Yud e disse perante Ele: “Senhor do Universo, que Te apraza criar o mundo por meu intermédio, porque eu sou a inicial do Teu Santo Nome [IHVH], e é apropriado para Ti criar o mundo por meu intermédio!”.

Respondeu-lhe: ‘Contenta-te em estar inscrita e gravada em meu Nome, e em constituir a fonte de toda a minha vontade. Sobe e volta, que não seria apropriado arrancar-te de meu Nome!”.

Apresentou-se, então, a letra Tet e disse perante Ele: “Senhor do Universo, digna-Te servir-Te de mim para criar o mundo. Não sou eu a inicial do Teu apelido Tov (“Bom”)?”.

Respondeu-lhe: “Não criarei o mundo por teu intermédio, eis que a bondade [que invocas] está oculta em ti [alusão à figura da letra], como que a indicar que pertence ao mundo do porvir e não este que pretendo criar. Ademais, a tua vizinha [na ordem alfabética] é a letra Chet é da conjugação de ambas resulta a palavra chet (“pecado”), razão porque essas duas letras não foram incluídas nos nomes das tribos sagradas!”. Prontamente a letra Chet se retirou de diante Dele.

Entrou a letra Zayin dizendo: “Senhor do Universo, que Te apraza, servir-Te de mim para criar o mundo, porque eu sou a inicial do preceito que ordena a Teus filhos a observação do Shabat, como está escrito: Zekhor – Lembra-te [do dia do Shabat] para o santificar!”.

A criação do mundo - a letra Gimel em uma ilustração da Alephbet Kids

A letra Gimel, da Alephbet Kids

Respondeu-lhe: “Não criarei o mundo por teu intermédio, que tu representas a guerra, a espada afiada e a lança do combate!” [alusão à figura da letra e ao significado de seu nome]. Prontamente, a letra Zayin retirou-se de diante Dele.

Vav, Hei, Dalet e Gimel

Apresentou-se, então a letra Vav e disse perante Ele: “Senhor do Universo, que Te apraza servir-Te de mim para criar o mundo, porque eu sou componente de Teu Nome [IHVH]!”.

Respondeu-lhe: “Vav, tu, bem como a letra Hei, contentai-vos em fazer parte do meu Nome e em permanecerdes gravadas nele e em seus segredos. Não criarei por vosso intermédio o mundo!”.

Apresentaram-se, então, as letras Dalet e Gimel, invocando o mesmo pedido. Também a elas respondeu:
“Contentai-vos em permanecerdes juntas [na ordem alfabética], que os pobres jamais desaparecerão da terra e estarão necessitados de auxílio. Dalet é a inicial da palavra dal (“pobre”) e Gimel é a inicial da palavra gamol (“prestar auxílio”). Por essa razão, não devereis afastar-vos um do outro, devereis antes coexistir!”.

Apresentou-se, finalmente, a letra Beit e disse-lhe: “Senhor do Universo, que Te apraza servir-Te de mim para criar o mundo, porque por meu intermédio Tu és abençoado nos mundos altos e nos mandos de baixo!” [a letra Beit é a inicial palavra Beracha = bênção].

Respondeu-lhe o Santo, bendito seja Ele: “Certamente é de ti que me servirei para criar o mundo, e tu será o início da criação!”.

A letra Alef

Permaneceu, pois, a letra Alef no seu lugar, não se apresentando. Disse-lhe o Santo, bendito seja Ele: “Alef, Alef, por que não compareceste diante de mim, como todas as demais letras?”

Respondeu a letra Alef: “Senhor do Universo, se vi todas as letras retirarem-se de diante de Ti dispensadas, por que me haveria de apresentar inutilmente? Ademais, também porque vi teres concedido à letra Beit aquele dom precioso, e não ficaria apropriado ao Rei das alturas de retirar o dom já oferecido a um de seus servos para concedê-lo a outro!”.

Disse, então, o Santo, bendito seja Ele: “Alef, Alef, se bem que me servirei da letra Beit para criar o mundo, tu serás, no entanto, a primeira de todas as letras, e a minha unidade não será expressa senão através de ti. Tu serás também a base de todos os cálculos e de todos os feitos do mundo, e não haverá unidade em parte alguma senão na letra Alef!”.

E o Santo, bendito seja Ele, criou as figuras das letras grandes celestes, às quais correspondiam as letras menores do mundo de baixo. É essa a razão por que está escrito [no início das Sagradas Escrituras]: “Bereshit bará Elohim et hashamáyim veet haarets“ com dois Beit’s e dois Alef’s, afim de anunciar a criação das letras celestes e das letras terrenas, ainda que ambas emanem de uma só fonte, tanto celestes como as terrenas.

Não está no texto e nem foi explicado pelo Elifas, mas é dito que Alef não tem som também por conta desta narrativa. Ao não se pronunciar, não importa a justificativa, ela acabou adquirindo este atributo, sendo, inclusive, uma letra associada, negativamente, à omissão.