Este artigo foi publicado no Zephyrus Tarot em 7 de março de 2010. Em 2013 eu fui hackeado e perdi quase tudo. Dos textos que eu havia guardado ou que amigos repassaram, restaurei ao site apenas os artigos específicos sobre Tarot. Este, por exemplo, ficou de fora.

Eu escrevi aqui que, apesar do Otiot se basear em princípios judaicos, qualquer tipo de oráculo é considerado uma mistvá (“conexão”) negativa para os religiosos. As mitsvót podem ser positivas ou negativas. As positivas te aproximam de D’us e as negativas te afastam Dele – basicamente isso.

O assunto voltou em uma conversa e caiu a ficha que eu havia escrito algo a respeito. Aqui está:

Zapeando a TV esta semana, assisto um pastor esbravejando a respeito dos “falsos profetas”. Ele cita várias passagens bíblicas que condenam o homem que deseja saber do seu futuro.

Lembrei de uma cliente que resolveu arriscar uma leitura e gostou da maneira como trabalho com as cartas. Curiosa a respeito do curso, questionou “se era correto aos olhos de D’us” fazer previsões sobre o futuro.

Estabelecendo limites

Sem querer entrar em polêmica, tudo o que posso escrever é sobre o que penso a respeito do assunto. Se estou certo ou errado, você avalia. Começo fazendo com um exemplo tosco:

Mensagem Illuminati: Não confie em ninguém

Mensagem Illuminati: Não confie em ninguém

É comum educarmos nossas crianças para que não falem com estranhos, pois “estranhos são perigosos”. Eu sou “um estranho” para inúmeras crianças, mas isso não faz de mim uma ameaça, claro. De qualquer modo, é mais seguro simplificar a regra a estabelecer parâmetros para alguém ainda incapaz de discernir o que pode ou não vir a ser perigoso.

Do ponto de vista histórico, faz-se necessário lembrar que as regras foram estabelecidas para o mesmo povo que, depois de todas as demonstrações de poder que testemunhou no Egito, no primeiro momento de dúvida usou de magia para evocar uma deidade pagã, o Bezerro de Ouro.

É dito que o trabalho foi obra da “massa confusa” que resolveu seguir com eles, mas isso não interessa. Todo mundo colaborou com um adereço de ouro para a fundição da peça que ganhou vida, literalmente. Na Bíblia que você lê na igreja parece que eles só reverenciavam uma estátua de ouro, mas a coisa é bem mais complicada. A quebra da primeira versão das Tábuas da Lei também não foi apenas um ato de indignação. Enfim, este texto tem outro enfoque.

O que eu quero dizer é que a radicalidade de muitas orientações tem por objetivo criar uma larga margem de segurança e evitar o risco de conclusões equivocadas.

A Cabala pode ser utilizada para adivinhação ou previsão do futuro?

O texto a seguir é do Rabino Michael Laitman, fundador e presidente do grupo Bnei Baruch Kabbalah Education & Research Institute. Alguém pergunta se a Cabalá pode ser utilizada para adivinhação ou previsão do futuro e ele responde, baseado nas instruções da Torá:

A Torá proíbe os adivinhos, magos e mágicos porque eles desanimam o homem de fazer aquilo que ele precisa fazer neste mundo, que é se estruturar e ascender rumo ao nível do Criador. O homem não deve tentar escapar daquilo que o Criador lhe dá, escapar daquilo a que ele está destinado, pois o seu desempenho de uma atividade neste mundo é o próprio processo que o capacita a trabalhar sobre si mesmo, corrigir-se e desenvolver espiritualidade. Se fosse necessário ao homem saber o que é que o próximo momento lhe reserva, ele o saberia. O futuro torna-se perceptível para ele somente quando o desejo de conhecê-lo não é mais motivado por motivos egoístas.

Sim, a resposta do Rav Laitman continua dizendo que o recurso oracular é errado. No entanto, é uma explicação muito boa porque permite considerações importantes:

Vamos falar de dependência

“(…) porque eles desanimam o homem de fazer aquilo que ele precisa fazer neste mundo, que é se estruturar e ascender rumo ao nível do Criador”.

O maior risco da prática oracular é a dependência. É achar que para qualquer decisão o oráculo precisa apontar um caminho ou validar uma inclinação pessoal. Quanto mais a gente procura as soluções através de outra pessoa, mais invalida a sabedoria que reside dentro de nós mesmos. Esta “voz interna” só se desenvolve na medida em que a exercitamos.

O oráculo é útil quando o desequilíbrio mental/emocional impede que a gente perceba as coisas com clareza. Ele nos ajuda a identificar os pontos-cegos, sendo mais últil no processo de entendimento do que “estou plantando” do que na revelação do que “estou para colher”. Uma coisa é consequência da outra.

Existe um livre-arbítrio?

“O homem não deve tentar escapar daquilo que o Criador lhe dá, escapar daquilo a que ele está destinado (…)”

“Escapar daquilo que o Criador lhe dá” é algo que vai ao encontro da minha visão torta a respeito de livre-arbítrio. Para mim – e guardadas as devidas proporções – somos como ratos de laboratório. De um lado temos um botão verde confere água. Do outro, um botão vermelho dá choque. Nós temos o livre-arbítrio, sim, de apertar o botão vermelho mil vezes, se assim desejarmos, mas o resultado será sempre o mesmo. Quer água? Então aperta o verde. Não tem Segredo (o livro) que mude isso.

“Ah, mas Paramahansa Yogananda rasgou o seu mapa”. Ok, mas é preciso ter a estatura [espiritual] de um Yogananda para se fazer isso. Essas coisas acontecem através da plena consciência de si e do Todo. Alcance isso primeiro. Se ainda não é o seu caso (como ainda não é o meu), você está apenas se enganando, querendo mudar fora antes de mudar dentro.

O oráculo, neste sentido, muitas vezes aponta para o que verdadeiramente estimula algumas atitudes (padrões mentais) ou faz com que as evitemos. Não foram poucas as vezes em que ouvi um “ah, então é isso…” e são esses momentos que fazem toda a diferença. Depois disso, naturalmente sabemos “qual botão apertar”.

Devemos ser como surfistas experientes que aproveitam o melhor de cada onda. O hocus pocus que muitos procuram geralmente é como uma “matrix dentro da matrix”. Você até pode achar que escapou, mas está apenas preso em outra dimensão do mesmo engano.

A onda perfeita

“Mas você escreve sobre óleos, florais e energia… isso não é hocus pocus também?”

Existe uma diferença entre se buscar o realinhamento energético (na verdade, buscar o seu cerne) e usar um talismã (ou algo equivalente) que resolva as coisas para você. No primeiro caso, trabalhamos o surfista, que se torna mais consciente das suas habilidades (as que possui e as que precisa desenvolver) para se manter na prancha. Também quanto maior for o seu conhecimento a respeito do seu momento (a qualidade da onda em que está), melhor – isto é correto.

No segundo, espera-se que a onda perfeita “surja” sem que se tenha construído mérito para isso ou se, que sejamos tão bons/hábeis para aproveitá-la de forma apropriada. Quando isso acontece, nos colocamos no papel de uma criança mimada que apenas quer porque quer. Aqui perde-se muito tempo no engano, como já escrevi, e, com raras exceções, ainda criamos mais karma negativo.

Você está falando mal de magia?”. Não. Apenas questiono o discernimento de algumas pessoas que se julgam capazes de torcer a realidade para satisfazer os seus caprichos. Tenho amigos que se entitulam magos e têm (ou parecem ter) consciência do que podem e do que não podem fazer. São pessoas que interagem com a onda on invés de querer dominá-la.

Mude… e o mundo mudará com você

“(…) o seu desempenho de uma atividade neste mundo é o próprio processo que o capacita a trabalhar sobre si mesmo, corrigir-se e desenvolver espiritualidade”.

Toda experiência traz consigo uma oportunidade de nos tornarmos melhores do que somos hoje. Um cliente esta semana perguntou meio constrangido: “mas as pessoas também te procuram quando está tudo bem, não é?”

Claro que não – e nem sou eu que vou dizer que deveriam. Saber como aproveitar os tempos de bem aventurança é tão importante quanto saber como lidar com os tempos de adversidade.

A palavra-chave é sempre “consciência”. O Tarot, por exemplo, ajuda no desenvolvimento desta consciência através do autoconhecimento até que você seja capaz de fazer isso sozinho.

Clientes são bem vindos. Clientes ajudam a criar recursos. Mas o que eu aspiro é que todos os clientes alcancem a felicidade e se libertem do sofrimento – e então eles deixarão de ser clientes. 😉

Homens e anjos

“Se fosse necessário ao homem saber o que é que o próximo momento lhe reserva, ele o saberia”.

É verdade. Somos homens, e não anjos. É dito que os anjos sabem exatamente a consequência de qualquer um dos seus atos – todo o desencadeamento para cada pensamento, palavra e ação. Se fôssemos como anjos estaríamos vivendo outra realidade. Viver com certa dose de incerteza é parte da nossa natureza.

Vale aqui, de novo, a questão da medida correta: não é para saber todo o tempo o que vem a seguir. Não é para alimentar a ilusão de que somos capazes de controlar todos os acontecimentos. Encare o oráculo como um daqueles avisos de segurança: “em caso de emergência, quebre o vidro” . Em caso de emergência. Tenha certeza de não estar fazendo isso desnecessariamente.

“O futuro torna-se perceptível para ele somente quando o desejo de conhecê-lo não é mais motivado por motivos egoístas”.

A experiência com o oráculo deve ser sempre libertadora. Isso significa trabalhar sobre os medos, mágoas, expectativas e outros elementos de obscurecimento mental até o ponto em que as ferramentas permitem. E, mais do que isso, é um trabalho sobre o que eu necessito, e não sobre o que eu quero.

Se oraculista e consulente assim procedem, não há, creio eu, como “estar errado aos olhos de D’us”.

Possam todos se beneficiar!