B.O.T.A. Tarot - O Mago

B.O.T.A. Tarot

Ninguém sabe a origem das cartas do Tarot. Lendas das mais variadas circulam em todo lugar, mas faltam evidências históricas.

Não é possível afirmar que os Arcanos Maiores foram concebidos secretamente para transmitir algum conhecimento espiritual de forma codificada. Ok, o contrário também é verdadeiro, mas, sem fatos concretos, tudo é especulação.

Os primeiros baralhos são de meados do século 15 e apareceram no norte da Itália para entreter a corte. Já no declínio de sua popularidade, foi descoberto por Antoine Court de Gébelin, que disse ter reconhecido nas lâminas o místico “Livro de Thoth”.

O Mundo Primitivo

Gébelin foi responsável pela publicação da obra Le Monde Primitif analysé et comparé avec le monde moderne, a partir de 1775, em oito volumes com temas variados. O Tarot do século 15 se tornou um mistério (um livro de códigos) a ser decifrado no século 18!

Comte de Mellet, um de seus colaboradores, publicou um ensaio fazendo a primeira correspondência entre os 22 Arcanos Maiores e as 22 Letras Hebraicas. Em uma época onde tentavam conectar diversos corpos de conhecimento, esta aproximação era inevitável.

Eu questiono o quanto as pessoas sabiam, de verdade, da cultura judaica para fazer isso. O que se tem de acesso hoje em dia é fruto de um processo bem recente (final da década de 80) de abertura das yeshivot, que são instituições de  estudo dos textos tradicionais – Torá, Talmud, Midrash etc.  Há várias questões envolvidas para que isso tenha acontecido, mas não vou entrar no mérito. Naquela época não era assim.

Enfim, algum motivo levou Mellet a alinhar a carta do Mundo à Alef até colocar o Louco, como a última cartas, alinhado à Tav.

A Escola Francesa

O Carro associado à letra Zayin

A ilustração do Carro no livro de Eliphas Levi

Eliphas Levi (Alphonse Louis Constant), nascido em 8 de fevereiro como eu, publicou o livro Dogma e Ritual de Alta Magia em 1855. Ele é considerado até hoje um dos grandes nomes do Tarot e responsável por muitos conceitos que trazemos até os nossos dias.

Ele identifica na postura corporal do Mago a forma da letra Alef, que descreve como “o ser humano, a mente, o homem ou Deus; o objeto compreensível, unidade mãe dos números e a primeira substância”. As otiot descrevem números. Alef é 1, assim como o Mago. Este é o ponto de partida e segue combinando numericamente.

O Louco, que não tem número no Marseille, é colocado entre o Julgamento e o Mundo. A ele é atribuído a letra Shin, que é inicial de shoté (“tolo”). Yoav Ben-Dov trouxe esta informação no livro Tarot-The Open Reading, de 2013, e eu acho que realmente pode ter sido este o motivo. Algumas letras são iniciais de palavras direta ou indiretamente ligadas aos arcanos. Maved, por exemplo, começa com Mem e significa “Morte”.  Tav, por sua vez, é a inicial de tevel, que significa o “mundo”.

Tenho a tradução do capitulo em que ele aborda as Letras Hebraicas no Tarot, autorizada pelo próprio, no Zephyrus Tarot.

A Escola Inglesa

Por “Escola Inglesa” estou englobando diferentes sociedades herméticas, tendo a Golden Dawn, de MacGregor Mathers, como carro-chefe. O Louco, a partir desse momento, passou a vir com o número zero gravado na lâmina.

Novamente a primeira letra, Alef, foi alinhada, à primeira carta – agora, não mais o Mago. Acontece, no entanto, que algo de diferente chamou a atenção nessa nova paridade: as cartas da Justiça e da Força.

Conforme encontramos no Oráculo Otiot, algumas letras regem signos e, outras, planetas. Alinhando letras e arcanos a partir do Louco, a letra Tet, que rege o signo de Leão, ficava alinhada à carta da mulher que segura uma balança. Por sua vez, a letra Lamed, que rege o signo de Libra, passou a compor com a carta que mostra uma mulher subjugando um leão. Acharam, então, por bem, trocar a numeração das lâminas. Por isso encontramos a Força com o número 8 e a Justiça com o número 11 nos baralhos que seguem esta configuração.

Na distribuição do septenário (3 linhas com 7 arcanos cada), a carta 11 ocupa a posição central. Há quem professe que a humanidade era regida pela força bruta e, a partir de então, passou a ser conduzida pela justiça. O discurso é tão errado que não tem como defender.

The Kabbalistic Tarot

The Kabbalistic Tarot

Tsade não é a Estrela

Do encontro de Aleister Crowley e Frieda Harris, surgiu o projeto de um novo baralho, o Thoth Tarot. Finalizado em 1943, cinco anos depois de iniciado, foi publicado apenas em 1969. Impossível ignorar a sua importância na história do Tarot. Ele se destaca pela incrível arte de Harris e por ter uma linguagem própria baseada nos ensinamentos de Thelema.  

Crowley restaura a ordem das cartas (Justiça 8 – Força 11) mantendo as letras da Golden Dawn (Justiça – Lamed, Força – Tet). No entanto, recebeu de seu mentor espiritual uma mensagem que acabou por promover outra mudança:

“Todas estas velhas letras do meu Livro estão corretas; mas Tsade não é a Estrela. Isto também é secreto: meu profeta o revelará aos sábios”

Esta canalização fez com que o Imperador e a Estrela também trocassem de letras. Desta forma, temos a letra Dalet atribuída ao Arcano IV por Eliphas Levi, a letra Hei para a Golden Dawn e a letra Tsade no Thoth. Quem estaria certo?

Estas são as principais referências, mas não as únicas.  William G. Gray, fundador da ordem  Sangreal Sodality, mudou várias coisas. Eu, sinceramente, não sei da sua relevância dentro do segmento hermético, mas lembrei de um livro dele que comprei há muitos anos e traz esta informação. Para manter o exemplo, o Imperador está associado à letra Vav.

É possível associar as otiot ao Tarot?

Bom, esta é ‘A’ pergunta.

Eu não pertenço ou fiz parte de qualquer ordem hermética. Li muitas coisas na década de 90 tentando entender a função dos Arcanos Maiores nos caminhos da Árvore da Vida e tive dificuldade em conjugar todas as peças – cartas, letras e caminhos. Desisti.

Da maneira que eu entendo, o sistema de cada ordem atende as demandas da mesma. É certo dentro daquilo que se espera em um contexto com regras preestabelecidas. Há rituais e visualizações que devem ser seguidos de acordo com estes parâmetros para se alcançar uma experiência “x”. Eu respeito isso.

Tive a oportunidade de estudar Cabalá pela ótica judaica e aprendi como as otiot são vistas e o que elas ensinam, de acordo com os ensinamentos extraídos da Torá. Inevitável olhar para o Tarot e tentar estabelecer uma conversa, mas não deu certo. É um namoro antigo com muitos flertes sem um retorno satisfatório.

Não tenho a intenção de traçar paralelos do Louco ao Mundo apontando erros e acertos. Destaco as quatro primeiras letras, como exemplo, elaborando o básico.

Alef e Beit

O Louco no Thoth Tarot

Thoth Tarot

Alef não é o homem, como apontou Levi. O homem é Vav, criado no sexto dia. Alef não é o verbo, como já li e ouvi algumas vezes em diferentes lugares, porque Alef é uma letra muda. Alguns dizem que é a letra da atividade, mas Alef é um estado potencial. Enfim, os argumentos herméticos estão baseados em conceitos que não sei de onde surgiram.

Mas, ok, Alef como potência pode ser atribuído ao Louco. E como a energia de Alef precisa ser encapsulada por Beit para ser funcional, é possível adotar a versão em que o Louco (Alef) é visto como um espírito que encarna no Mago (Beit) e, este sim, faz a jornada em direção ao Mundo.

A coisa complica se eu lembro que Alef é a letra do líder (aluf), e aí não tem como ajudar, pois este papel definitivamente não é compatível com o Arcano 0.

Os franceses estão certos quando associam alguns aspectos de Beit à Papisa, vale comentar. Beit é, de fato, a casa, sendo a Papisa a guardiã do templo. O Grande Templo de Jerusalém é conhecido como Beit HaMikdash (“Casa Santificada” ou “Casa onde reside a Santidade”).

Beit, por um lado, também descreve a privacidade dos locais fechados assim como a Papisa fala de segredos e sugere que o indivíduo se volte para dentro. Faz mais sentido relacionar estes atributos à Papisa do que ao Mago, que está mais preocupado no reconhecimento do que o cerca e pede uma atitude extrovertida.

A letra, no entato, é muitas vezes descrita como a tenda de Avraham, que permanecia aberta em um dos lados para receber visitantes – um símbolo da hospitalidade – e isso é bem contraditório com a natureza reservada do Arcano II. Também pesa o fato de Beit ser a letra que dá início à criação quando sabemos quem é o arcano dos começos.

Em resumo, o processo como um todo é tal qual um cobertor pequeno: a gente cobre de um lado e deixa alguma coisa de fora.

Gimel e Dalet

Gimel e Dalet são duas letras especialmente curiosas e interligadas. No midrash que narra a criação do mundo isso fica bem claro. Gimel representa o homem rico que vai ao encontro do homem pobre, Dalet.

Se olhamos Gimel como a Papisa, temos várias questões. A primeira delas é a própria ideia de ação e movimento, enquanto a Papisa representa o princípio da receptividade. As pessoas se dirigem à Papisa na tentativa de ingressar no templo. Ela não vai ao encontro de ninguém e, dos que a procuram, seleciona quem merece a sua atenção.

No livro O Tarô de Thoth, do Johann Heyss, está escrito que Beit é a boca, Gimel é a garganta e Dalet é o seio, a nutrição. Não há fonte judaica que eu conheça que dê respaldo a estas afirmações do Crowley.

Letra Gimel no Tarot of Magical Correspondences

Tarot of Magical Correspondences

Gimel, não Dalet, é a letra da nutrição, da amamentação e do desmame, quando a criança está pronta para se alimentar por conta própria. Da recompensa pelas boas ações e da punição quando nos deixamos levar pelo yetser hará (“má inclinação”).

“Ah, então Gimel é perfeita para a Imperatriz!”. Concordo, mas aí temos um problema com o Imperador, que não tem como ser visto como o “homem necessitado” (dal), um dos principais indicadores de Dalet. Caímos no mesmo problema com a Imperatriz, seguindo as escolas herméticas.

No Zohar, Dalet é tida como a “que não tem nada dela mesma”. Por esta perspectiva, é comparada à Malchut, a sefirá que só tem a  luz que recebe das sefirot acima dela. No Oráculo Otiot, veremos como conselho de Dalet o reconhecimento do que precisamos, do que nos faz (sentir) pobres. É uma letra que desperta em nós a humildade e uma atitude abnegada.

O estado de pobreza de Dalet não se limita aos recursos materiais, por favor. Além de se aplicar a qualquer coisa tangível ou intangível que não temos, também pode ser visto constatando que mesmo o que possuímos não nos pertencer realmente, mas “é um presente de D’us”. Esta abordagem religiosa se desdobra em diferentes princípios filosóficos, incluindo a explicação para as desigualdades sociais. No dia em que escrever sobre Dalet elaboro melhor.

Sim, Dalet também é “porta” (delet), que é o discurso mais conhecido nos livros de Tarot. A porta representa a passagem de uma dimensão para outra, também sugerindo a ideia de entrar ou sair de um espaço delimitado. De modo geral, eu tenho o discurso da porta que abre (dá acesso) ou fecha (bloqueia), dependendo da necessidade. Na literatura judaica, é comum falar do pobre que bate na porta para pedir, o que volta para o discurso anterior com um conselho adicional: não basta estar receptivo para a ajuda que é ofertada (por Gimel), mas também é necessário ter coragem, talvez (estou na dúvida se é a melhor palavra), para dizer ao mundo o que você precisa.

Outra coisa que me passa pela cabeça agora é o fato de Beit e Dalet serem sempre descritas como letras femininas. De novo temos uma incompatibilidade de Beit com o Mago (Escola Inglesa) e Dalet com o Imperador (Escola Francesa).

Em resumo

A escolha de como usar o Oráculo Otiot é de cada um. Conforme eu recomendo no manual que acompanha o baralho, o melhor é não traçar paralelos. Temos informações de sobra apenas contemplando os atributos e regências das letras. Dentro daquilo que a ferramenta se propõe, já é de uma ajuda incrível.

Obviamente, você é livre para discordar das minhas explicações. Estou colocando um ponto de vista, não uma verdade absoluta. A área de comentários está sempre aberta para conversar com quem estiver disposto a argumentar de boas.

Possam todos se beneficiar!